
Quem nunca usou do cinema como um artifício para conquistar a pessoa amada? Desde que a sétima arte existe, e lá se vai mais de um século, o clima oferecido por uma sala de cinema é tão propício ao romantismo quanto um jantar à luz de vela em um restaurante chique.
Se o cinema é o programa ideal para casais, por que não pensar numa lista de filmes para curtir essa data tão especial ao lado do amor de sua vida? Não pensou em nenhum filme, então não se preocupe. Vou dar algumas dicas. Mas deixarei os clichês de escanteio. Não estranhe.
Luzes da Cidade (City Lights, 1931)

Em 1931, o cinema sonoro já era mais do que uma realidade. Mas para Charles Chaplin, no cinema não era preciso falar, apenas olhar. Sua carta de intenções já é escancarada na frase contida nos créditos iniciais: “uma comédia romântica em forma de pantomima”.
Chaplin faz o personagem de sempre, o vagabundo. Neste filme, os temas sociais comuns em boa parte de sua carreira (a industrialização de “Tempos Modernos”, a pobreza de “Em Busca do Ouro”, o nazismo de “O Grande Ditador”) ficam em segundo plano diante uma questão humana não menos importante: o amor.
Logo no início a comédia romântica se sobrepõe ao humor de costumes quando vemos o vagabundo topar com uma florista durante uma flanada pela cidade. A cena é memorável. Para quem não viu o filme, os primeiros dez minutos do vídeo descreve com precisão o nascimento do amor:
Luzes da Cidade Legendado Completo
Acho que não há nenhuma cena mais bela do que essa para descrever o amor. A mulher derruba uma flor ao oferece-lá ao vagabundo. Ele gentilmente a pega do chão, enquanto a moça ainda procura a flor tateando ao seu redor. Aí que o vagabundo percebe ser cega a mulher. E, instantaneamente, ele se apaixona por ela. Não porque ele sente pena por ela não enxergar. Carlitos parece se identificar com isso. A cegueira da florista correspondente à sua miséria. A cegueira para um e a pobreza do outro são motivos para ambos serem excluídos da sociedade.
Nesses dez minutos, a mulher cega é a única que parece reagir diante do vagabundo com cortesia. Ao invés de afugentá-lo, ela gentilmente prega uma flor na lapela do surrado casaco dele. Se o amor verdadeiro não é egoísta, Carlitos prova isto ao não tirar proveito da cegueira dela para conseguir algo em troca. Ele a ama e por isso quer fazer com que ela enxergue. Mesmo que isso possa levá-la a ver como ele realmente é, um “vagabundo”.
Chaplin abandona então o coletivo para se concentrar no indivíduo. Claro que suas lentes não deixam de registrar uma discrepante realidade social, ou seja, o abismo que separa os ricos dos pobres, mas a questão social só ganha relevo porque a miséria aqui é a ponte intransponível que o Vagabundo terá que milagrosamente atravessar para conseguir o que tanto deseja: dar suporte financeiro para que a mulher por quem está apaixonado possa curar-se da sua cegueira.
A questão do filme, ao final, não é nem tanto se o calvário de Carlitos para fazer a florista enxergar será recompensado. Ao final, quando descobre ao acaso que a moça consegue o ver e que ela o reconhece um tanto espantada por ser um vadio, ele não se sente diminuído por ela olhar para ele com uma expressão de pena. Ele sorri. Simplesmente porque ela enxerga. O amor, segundo Chaplin, é verdadeiro porque ele não pede nada em troca.
O sorriso de Carlitos que precede o “The End” nunca foi tão reluzente e puro. A florista o consegue ver. Não importa de que maneira. Só isso basta. Não é preciso falar, basta olhar. E chorar. Com essa cena, até uma pedra é capaz desse gesto. Nunca um filme mudo nos disse tanto.
O Fantasma Apaixonado (The Ghost and Mrs. Muir, 1947)

Já pensando no Dia dos Namorados, a TV aberta reprisou “Ghost” na última semana. Para surpresa de todos e espanto da concorrência, o filme liderou os índices de audiência mesmo após ser exibido na telinha pela milésima vez. “Ghost” permanece como um fenômeno tão inexplicável quanto o tema que aborda: a vida após a morte e o amor além da vida.
Mas não foi este filme que inventou os romances espirituais. Muito antes de a Demi Moore esculpir vasos de barro na presença de um ectoplasmático Patrick Swayze, havia outro “Fantasma Apaixonado”, no filme homônimo de 1947.
A recém viúva Lucy Muir (Gene Tierney) abandona Londres e o seu passado para morar no litoral. Por lá, com a pequena filha, decide morar numa casa que até o corretor de imóveis não queria lhe mostrar: uma mansão abandonada e, para muitos, assombrada pelo fantasma do capitão Gregg que havia se suicidado nela.
O fantasma mal-humorado do capitão tenta atormentar Lucy, mas não só ele falha na sua missão como se surpreende pela mulher não se incomodar com sua existência. Ela ainda o ajuda a organizar suas memórias e as lança em livro. Da cumplicidade de dois mundos, nasce o amor improvável entre os dois. Improvável e sofrido. Afinal, ela nasceu tarde demais para poder navegar os sete mares ao lado do capitão. Ele morreu cedo demais para poder beijá-la.
Como disse o cronista português João Bénard da Costa: “não há filme mais triste. Não há filme mais bonito”. Só o amor pode a tudo transcender, parece dizer o filme. Só o cinema pode tornar esse sentimento real. Pode haver ocasião mais apropriada para descobrir “O Fantasma Apaixonado”? Creio que não.
Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971)
O destino faz o caminho de um adolescente melancólico (que encena suicídios para chamar a atenção de sua mãe) se cruzar com o de uma senhora de quase oitenta anos repleto de energia. Eles se encontram com freqüência e por acaso devido ao hábito que ambos têm de visitar funerais como penetras.Desses encontros nasce uma amizade e, depois, um romance. Caso de amor tão curioso que lembra histórias daquelas que geralmente são exploradas em programas de baixaria na televisão. Mas a direção serena de Hal Ashby foge do sensacionalismo que alegraria os espectadores do Ratinho. O filme vai além do interesse de fazer valer o velho ditado “o amor não tem idade”.
O interesse maior da narrativa é mostrar o amor como uma experiência de troca. Compartilha-se o afeto, mas também idéias, prazeres, temores, alegrias. O amor é, segundo o filme, uma lição de vida. Por isso o título em português não está muito distante da essência da obra.O mais bacana é a inversão de valores que há na narrativa. Em plena década do orgulho da juventude, dos hippies e seu amor livre, é a velhota que esbanja vitalidade e ensina o garoto (que parece um velho rabugento) a curtir a vida com uma boa dose de irresponsabilidade.
Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990)
Um jovem casal. Ela é meio maluquinha. Ele, um arruaceiro. Eles se amam, mas a mãe dela quer destruir a relação. Eles decidem fugir dela e de tudo. A história parece familiar? Tá com cara de dramalhão de novela das oito? Não quando quem conta essa história banal é David Lynch.O romance de Sailor e Lula é uma versão rock n’ roll de um conto de fadas. Seria o Romeu e Julieta caso Shakespeare fosse da geração Elvis Presley e tivesse uma câmera no lugar de uma caneta.
Para quem pensa no amor como uma força da natureza, como uma pura química de corpos entrelaçados a produzir eletricidade, gerar combustão… Esse é o filme ideal para esses selvagens do coração. Se você acha que um verso cantado por Johnny Cash em “Ring of Fire” contém mais romantismo do que toda a discografia de um Elton John, esse é o filme. Afinal, não deveria haver nada mais barulhento do que o amor, certo? Eis uma obra no volume máximo.
Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002)
Quando se fala em Adam Sandler numa comédia romântica, logo surge na mente o título “Como se Fosse a Primeira Vez”. Prefiro o subestimado “Embriagado de Amor”. De longe, o filme mais imperfeito, estranho e belo dirigido por Paul Thomas Anderson.É o único filme do cineasta queridinho da crítica norte-americana que não decaiu numa revisão. Há centenas de motivos para odiar esse filme, mas eu continuo apreciando. Anderson consegue coisas improváveis. A primeira é fazer que Emily Watson perca sua habitual expressão de pena e pareça desejável diante da câmera. Depois, o cineasta tem a coragem de colocar um astro como Sandler num papel impopular e desconfortável: o ator faz o dono de um negócio inútil que usa terno azul até durante o expediente e não consegue se comunicar minimamente com as pessoas. É um loser em nível hard. Vai muito além do engraçado que o espectador comum de comédia pode suportar.
Por último, o diretor usa uma música tenebrosa tirada do filme “Popeye” e a faz parecer agradável aos ouvidos. Shelley Duvall canta “He Needs Me” com uma voz tão irritante e desafinada que ruborizaria até o Wagner Moura, mas a canção cai como luva como tema de um romance excêntrico.Se o encanto nasce de improbabilidades, esse filme é a prova concreta disso. Sendo uma comédia romântica que consegue extrair beleza da estranheza, temos aqui um genuíno filme de amor, daqueles que prova ser verdade o ditado: “quem vê cara não vê coração”.
Via@ | Diego Costa Assunção
Formado em jornalismo. Já foi crítico de cinema. Colaborou para Cine Imperfeito, Revista Cinética, Movie e no blog Cinema de Boca em Boca, do crítico Inácio Araujo.
Diego Costa Assunção já escreveu: 18 artigos.














































