E a crise? Vai bem, obrigado!

Após os primeiros seis meses do ano, o mercado interno é o principal fator para o bom desempenho do Brasil frente à crise econômica mundial. O aumento do percentual de pessoas na classe média do país, bem como a expectativa para que mais brasileiros entrem no mercado de consumo, tornou o Brasil uma referência no cenário econômico, mas não impediu que alguns setores da economia fossem afetados e um dos principais motivos é a mudança no comportamento de consumo do brasileiro.
Crise! Assim como você leitor, cansei de ouvir dizer essa palavra durante alguns bons nove meses, tempo necessário para que a mídia proclamasse um verdadeiro “corra e se esconda” diante do tema. De fato, tudo caminhava bem, menos na terra do Tio Sam. Por lá, desde 2007 a recessão já era oficial e a muito já acontecia.
A crise americana, ao contrário do que muitos pensam não aconteceu somente pela quebra do mercado imobiliário, o problema é anterior a ela. Em 2001 com o estouro da bolha das chamadas empresas “ponto com”, os Estados Unidos entraram em recessão (ainda não oficial). Como resposta, no ano de 2003 o governo reduziu os juros para 1% ao ano. Resultado: uma economia re-aquecida, em forno microondas, diria eu, e o chamado “boom” no mercado imobiliário americano.
Gananciosas (assim como todo bom capitalista) as empresas imobiliárias forneceram crédito para um determinado grupo de clientes conhecidos como subprimes, que nada mais eram do que pessoas com histórico de inadimplência hipotecária. Tal grupo apresentava maior risco para pagamento de suas hipotecas, mas em contrapartida, as taxas de juros aplicadas eram mais altas, resultando assim em mais lucro.
Bancos, fundos de investimentos e gestores interessaram-se por essas dívidas hipotecárias e compraram títulos dessas dívidas. Estes gestores, ao comprar os títulos das empresas imobiliárias que fizeram o primeiro empréstimo, permitiram que um novo montante de dinheiro fosse emprestado, antes mesmo do primeiro ser pago. Ainda interessado no lucro, um terceiro gestor comprava o título adquirido pelo segundo, formando-se assim uma cadeia de venda de títulos.
O grande problema deu-se quando o grupo subprime não conseguiu pagar sua hipoteca, gerando uma espécie de ciclo de não recebimento. O mercado, respondendo á crise hipotecária, passou a ter receio de emprestar dinheiro para esse grupo, que assim não conseguiu pagar suas contas o que gerou retração no crédito econômico americano.
Como conseqüência, em 2006, o preço dos imóveis começou a despencar. Sem dinheiro, o consumidor americano não pode fazer novas hipotecas e com isso a oferta passou a superar a demanda. Com menos dinheiro disponível, o consumidor bloqueou gastos, o que afetou a lucratividade das empresas, que por sua vez não mais contrataram, e inúmeras anunciaram demissões. Estima-se que o consumo das famílias americanas tenha caído 5% só em 2008.
Como maior economia mundial, a crise instaurada nos EUA atingiu patamares globais e no Brasil não foi diferente, também fomos afetados, porém de uma maneira que se caracterizou mais como uma crise fundamentalista do que uma crise técnica. Atualmente o Brasil é considerado um país emergente, ao lado da Rússia, China e Índia. Ocupa a 8ª posição na economia mundial e tem a 5ª maior população do planeta. Em 2007 e 2008 o PIB brasileiro cresceu mais de 5%, número acima do esperado, enquanto países considerados de primeiro mundo entraram em uma sombria depressão.
O fator determinante para o desenvolvimento do Brasil, sem dúvidas é o mercado interno, que só em 2008 cresceu por volta de 6%. Esse mesmo mercado, segundo a Revista Exame (Para onde vai o consumo, de 8/4/2009) foi responsável por 60% de toda a riqueza produzida no país, ou seja, a bagatela de 1,8 trilhões de reais. Em 2009, na pior hipótese (retração de 0,5% da economia), o mercado interno brasileiro irá repetir com folga os números registrados em 2008.
Em alguns setores, analistas prevêem um ano farto. Cito como exemplo, os supermercados e redes farmacêuticas que devem crescer 5,3% e 12% respectivamente. No entanto, estima-se que os setores de automotivos, combustíveis e eletrônicos devem sofrer uma retração. A explicação é uma só: a mudança no comportamento do consumidor frente ao que chamo de “ideologia midiática” da crise. Os veículos de comunicação bateram tanto nessa tecla, que o medo da crise tomou conta do consumidor brasileiro. As empresas por sua vez, relutam em ceder crédito aos consumidores e esses relutam em usar os créditos disponíveis.
Com a premissa de “uma crise eminente”, o consumidor cortou gastos considerados supérfluos, como por exemplo: alimentação fora do lar, celular, eletroeletrônicos, roupas, automóvel, lazer, etc. Conseqüentemente as empresas têm “se virado nos 30”, readequando-se a nova realidade do mercado, que se aquece internamente. Não é de se admirar que setores como os de supermercados e hipermercados sejam líderes em crescimento. Bens e serviços que são considerados essenciais, como alimentação e higiene pessoal provavelmente não serão afetadas pela crise.
A Fractal, empresa especializada em pesquisa de consumo, listou cinco prioridades nos gastos de diferentes classes sociais. As classes A1 e A2, por exemplo, tem como prioridades: o turismo interno, marcas Premium, carros importados, imóveis para investimentos e segurança. As classes B e C têm como prioridades: a troca de imóvel, material de construção, lazer doméstico (aparelhos de CD, DVD e televisor), alimentos e eletrodomésticos. Para as classes D e E a realidade é um pouco diferente. Suas prioridades são: alimentos (carnes, cereais, lácteos), produtos farmacêuticos, vestuário, aluguel e eletrodomésticos. Se colocados sob análise, esses dados revelam claramente que o que pode ser supérfluo para uma classe é prioridade para outra, uma clara conseqüência da desigualdade social no Brasil. Nas classes B e C verifica-se o aumento considerável nos gastos com lazer doméstico. A explicação é plausível, visto que essas mesmas classes cortaram gastos no que diz respeito a lazer fora de casa. Com isso ou simplesmente compensando de maneira material, temos o aumento nos gastos com o lazer doméstico.
Com o gradativo aumento do poder de compra da classe C, devido ao constante aumento salarial acima dos índices inflacionários, acredita-se que as conseqüências da crise, tende-se a normalizar com o tempo. Algumas regiões do país, por exemplo, sofrerão mais com as conseqüências da crise. A região sudeste, que é responsável por mais da metade de todo o consumo do país deve registrar uma queda de 1% no potencial de consumo em 2009 enquanto que para a região Sul estima-se algo em torno de 2,7%. As regiões Norte e Nordeste devem superar as expectativas. Estima-se um aumento de 6% no potencial de consumo para a região norte e 3% para o Nordeste. Este último, em conjunto com os estados do Norte ultrapassou a região sul como pólo de investimentos. O crescimento da região Norte/Nordeste dá-se em sua grande maioria pelo aumento do salário mínimo, e os programas do governo como, por exemplo, o Bolsa Família. Tais programas têm ajudado no aumento do potencial de compra da população dessas regiões.
É evidente que o mercado interno tem impulsionado o crescimento e manutenção da economia brasileira. Mesmo com a cautela do consumidor em fazer novas dívidas é aceitável que em tempos de crise o receio faça com que certos gastos sejam adiados ou até cancelados. Porém, é dever das grandes organizações entender essas mudanças no comportamento do consumidor e assim criar alternativas viáveis e criativas para atrair seu público de interesse.
É em época de crise que vemos maiores crescimentos e aprendemos as melhores lições. Maurício Werner pontuou sabiamente na capa de seu livro (2007): “Enquanto uns choram, outros vendem lenço”. É exatamente esse ensinamento que devemos aplicar durante os períodos de crise.
Concluindo, conto a vocês uma historinha que certa vez ouvi:
Um casal, já de certa idade, com seu filho criado e estudando economia nos Estados Unidos, resolveu abrir um pequeno negócio. Tratava-se de um pequeno empreendimento num dos cômodos da frente da casa do casal, que na época encontrava-se vago. O casal decidiu por abrir um pequeno restaurante caseiro. Com o passar do tempo, cada vez mais clientes freqüentavam o estabelecimento e com isso o casal decidiu fazer alguns investimentos como: melhorar a iluminação do ambiente, instalar som ambiente, melhorar a qualidade dos alimentos, oferecer guardanapos de pano, entre outros.
Seu filho chega dos Estados Unidos para uma visita, e indaga o pai sobre os investimentos feitos. Insistentemente diz ao senhor para que feche o restaurante, pois os Estados Unidos estavam em crise e a crise com certeza atingiria o Brasil e certamente o restaurante ia falir. O pai, surpreso, retruca dizendo que a base de clientes só tem aumentado assim como os lucros. Novamente o filho alerta o pai sobre o investimento feito e também para que tome cuidado com a crise.
Alguns dias depois, o filho do casal volta para os EUA. Seu pai, preocupado com a crise, começa a seguir os conselhos do filho e retira o som ambiente. Logo depois retira os guardanapos de pano, iluminação e gradativamente todos os outros investimentos. Após algum tempo o casal percebe que os clientes vão deixando de freqüentar o restaurante e posteriormente o restaurante vai à falência. Espantado o velho olha para sua mulher e diz: – Não é que o menino estava certo mesmo! Essa crise veio para ficar!
Moral da história: A crise muitas vezes está só no nosso pensamento e não na realidade.
Abraço a todos! E até a próxima!
Felipe Agnello
felipeagnello@publistorm.com














essa história do final é muito triste! Ainda bem que não é meu pai. haeiuhaiu mto boa a matéria, abraço geral.