Into my Arms – Pura Beleza 

»

21.6.2012 - 14:07

Compartilhe:

nick cave

Pensei em começar com o título: “Into my Arms e a razão por eu achar que um peido do Nick Cave vale mais que um estádio cheio para ver U2″, mas minha namorada achou que ficaria grande demais. Com um título desses, muitos poderiam achar também que estou tentando transformar uma comparação entre as qualidades que vejo em Nick Cave e os problemas que vejo em U2 num duelo digno de Guitar Hero. Não é bem esse o caso.

No post anterior abordei o clipe do U2 para a música “Original of the Species”. É um vídeo bastante simples em sua essência: uma mulher computadorizada é criada, enquanto integrantes da banda surgem cantando sob um fundo preto. O cenário minimalista me faz recordar o clipe de “Into my Arms”, de Nick Cave & The Bad Seeds. Curioso que além da semelhança visual, as duas músicas ilustradas em vídeo são canções românticas dessas que mais parecem cartas de amor.

Comparar os vídeos e as músicas foi um exercício útil para que eu conseguisse ver com clareza a faixa de Gaza que separa minha admiração pela arte de Nick Cave e o desgosto que sinto por U2.

Não gosto de U2 porque o amor declarado por Bono Vox em “Original of the Species” toma o caminho das palavras confortáveis de um amor lindo e perfeito. “Eu me ajoelho porque quero você um pouco mais/ Eu quero muito do que você tem/ E eu quero nada do que você não seja”, diz a letra que parece saída de um texto usado por alguma empresa de telemensagem. A lágrima virtual da mulher manequim também incomoda muito, mas essa parece uma metáfora perfeita para a incapacidade da banda de demonstrar uma emoção real. Tudo fica pior quando vemos Bono gritar e se contorcer para demonstrar algum sentimento no vídeo. Uma atuação digna de novela mexicana.

Nick Cave & The Bad Seeds – Into My Arms

Prefiro Nick Cave porque ele demonstra ser louco (logo apaixonado) o suficiente para recorrer à Deus para que este lhe ajude a iluminar o caminho de sua amada até o dele. Parece um apelo comum, certo? Não quando o cantor afirma logo no primeiro verso da letra que não acredita num Deus intervencionista. O amor é belo para Cave não porque ele é ideal, ou perfeito, mas porque ele é trágico. Ou em suas próprias palavras:

“Uma canção de amor é uma música triste, é o próprio som da tristeza. Todos nós experimentamos dentro de nós o que os portugueses chamam saudade, que se traduz como uma sensação inexplicável de ânsia, algo sem nome, um anseio enigmático da alma. E isso é o sentimento que vive nos domínios da imaginação e da inspiração, solo fértil para a música triste, para a música de amor, é a luz de Deus, lá no fundo, soprando através das nossas feridas”.

Por isso não vemos Nick Cave pular, se descabelar ou uivar no vídeo. Para ele parece não haver outra postura possível diante o sofrimento senão conter-se num lamento solitário. O vemos cantar de cabeça abaixada, mãos cruzadas na altura da cintura e a voz embargada.

Enfim, Cave parece dizer que uma canção não pode ser de amor se não mergulhar nas profundezas do sofrimento. É precisamente isso que nos chega aos ouvidos em “Into my Arms” e isso que nos mostra o clipe da música: a dor. Ela está no choro de cada face que aparece no vídeo (pessoas de todas as idades e etnias, afinal, o sofrimento é para todos, mostra Cave) e em cada verso, como neste: “Eu não acredito na existência de anjos / Mas ao te olhar, me pergunto se não é verdade / Mas se eu acreditasse, eu convocaria todos eles juntos / E pediria que te guardassem / Que cada um lhe acendesse uma vela / Para fazerem o teu caminho limpo e iluminado / E andarem, como Cristo, em graça e amor / E te guiarem para os meus braços”.

São versos bonitos, mas imersos em desespero. O mais parecido dessa demonstração de dor que há em “Original of the Species” é o onomatopeico verso “Oh no, oh no no no… uh, no” contido na letra ou a lágrima virtual do boneco em forma de mulher. É muito pouco. De resto, a música é um compêndio de palavras bonitas dispersas. É tão agradável quanto um jato de bom-ar num vaso sanitário. Com versos de cunho motivacional do tipo “Todo lugar que você vai, você chama atenção / Não há motivo para se envergonhar disso”, Bono deveria tentar carreira de guru espiritual.

Em “Original of the Species”, tudo é forçosamente exagerado. O grito de Bono compete com os solos de The Edge, que é ofuscado pela batida eletrônica. Cada um quer chamar mais a atenção do que o outro. Em “Into my Arms”, tudo é discreto. Nick Cave canta como se não quisesse cantar. A voz sai de sua boca como se ela rompesse do fundo de uma gruta. E o piano só acompanha a interpretação do cantor, como se o som do instrumento fosse capaz de aplacar o sofrimento cantado. O piano na música é como o gesto solidário que faz a mão do músico, ao final do clipe, tocar o rosto de uma mulher aos prantos para aplacar a dor dela.

Enquanto o U2 precisa de muita coisa para dizer nada. Para Cave, menos é mais. Isso fica evidente na concepção dos dois vídeos. Palavras bonitas podem ser cantadas por Bono e enviezadas por um vídeo criativo que se propõe a mostrar uma mulher sendo gerada em computação gráfica, com flores e frases edificantes brotando do seu rosto. Mas nenhum floreio é capaz de expressar ou recriar com dignidade a expressão humana do sofrimento. Um choro virtual não consegue suplantar a veracidade de uma face que se contrai, os lábios que tremulam… Essa imagem bela e trágica que só o rosto humano é capaz de constituir é a pura expressão da tristeza do amor cantada por Cave que ele transpor também para o clipe.

Into My Arms

Pura beleza.

Diego Costa Assunção

Formado em jornalismo. Já foi crítico de cinema. Colaborou para Cine Imperfeito, Revista Cinética, Movie e no blog Cinema de Boca em Boca, do crítico Inácio Araujo.

Diego Costa Assunção já escreveu: 18 artigos.

2 Comentários

    Warning: call_user_func() expects parameter 1 to be a valid callback, function 'custom_comment' not found or invalid function name in /home/publistorm/publistorm.com/wp-includes/comment-template.php on line 1334

Deixe uma resposta

Note: XHTML is allowed. Your email address will never be published.

Subscribe to this comment feed via RSS

More in Música (49 of 101 articles)
pictogramas rock


Tá na hora de testar o seu conhecimento sobre Rock and ...

Publistorm.com 2013 | Todos os direitos reservados.