Mixtapes no cinema de Cameron Crowe 

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12.7.2012 - 10:49

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Na postagem sobre “Compramos um Zoológico”, falamos um pouco do estilo de Cameron Crowe e dos temas comuns em seus filmes. Deixei de lado ali uma peculiaridade muito importante em seu cinema que o levou a conquistar uma legião de admiradores: o bom gosto musical na escolha de canções para compor as suas trilhas sonoras.

É fácil entender porque o diretor demonstra ter um profundo conhecimento de cultura pop. Antes de pensar em seguir carreira no cinema, Cameron Crowe atuou como jornalista musical. Com apenas dezoito anos teve publicada sua primeira matéria de capa da Rolling Stone. O tema era a banda The Allman Brothers. E esse feito o levou a se tornar o mais jovem colaborador de todos os tempos dessa que é uma das revistas mais conceituadas do seguimento. A história de “Quase Famosos”, por sinal, é um relato autobiográfico da juventude do cineasta como crítico musical.

Com mais de meia dúzia de filmes no currículo, é certo que Cameron Crowe elegeu o cinema como sua profissão. Mas isso não fez com que ele deixasse sua profissão de origem totalmente de lado. Além de ainda colaborar eventualmente para a Rolling Stone, ele dirigiu recentemente um documentário sobre a banda Pearl Jam – a relação com os membros do grupo vem desde “Vida de Solteiro”, filme que tem participação de alguns deles.

Um dado curioso que prova o quanto a música é importante até para os métodos de trabalho de Crowe como diretor vem do fato dele ter gravado uma mixtape para Matt Damon como forma de convencer o ator a participar de “Compramos um Zoológico”. Com uma seleção de músicas, o cineasta quis exemplificar qual tom emocional pretendia impor no filme. Inclusive algumas das músicas da coletânea feita para o ator foram usadas na trilha sonora do filme, como Buckets of Rain (Bob Dylan), Don’t Be Shy (Cat Stevens) e Airline to Heaven (Wilco).

Algumas Trilhas da Mixtape de Cameron Crowe

Além de possuir um conhecimento enciclopédico de rock n’ roll, Crowe sabiamente aproveitou do contato no universo musical para obter parcerias raras para as trilhas sonoras dos seus filmes. Em “Vida de Solteiro”, por exemplo, quem assinou a trilha foi ninguém menos que Paul Westerberg, o gênio por trás da banda The Replacements.

E para “Compramos um Zoológico”, que é um filme com cara de produção feita sob encomenda, Crowe descolou outro nome improvável como autor da trilha sonora: Jónsi, integrante da banda islandesa Sigur Rós. Se o diretor acredita ser importante para seu elenco ouvir as músicas selecionadas por ele para dar vida aos personagens, a tática de construir cenas como se elas fossem mixtapes visuais é outro aspecto fundamental em seu cinema. A trilha de Jónsi é prova disso, dando um toque de personalidade ao filme. Se o compositor fosse um medalhão como Danny Elfman ou Howard Shore, provavelmente o sentimento de ver um filme genérico dos estúdios Disney seria reforçado.

Jónsi – We Bought a Zoo Soundtrack

A sonoridade etérea característica do grupo Sigur Rós e que Jónsi contrabandeia para o filme é um componente primordial na narrativa de “Compramos um Zoológico”. A trilha incomum faz com que o filme fuja do sentimentalismo barato. Mais fácil seria conquistar o espectador usando solos de piano numa trama fadada ao dramalhão, mas Crowe recusa esse caminho fácil ao optar por uma trilha que entra com cautela nas dores dos personagens. A música é fator primordial para que o filme saia do lugar comum do gênero “água com açúcar”.

Deus abençoe Cameron Crowe por possuir um ouvido exigente. Ele poderia recorrer ao último sucesso da Billboard ou à uma canção grudenta de algum rapper de balada no intuito de agradar um público que consome e descarta arte com a mesma velocidade que devora pipoca numa sala de cinema. Mas não. Ele prefere tirar do seu baú alguma velha canção de Yusuf Islam dos tempos em que ele ainda se chamava Cat Stevens. Obrigado por isso.

Diego Costa Assunção

Formado em jornalismo. Já foi crítico de cinema. Colaborou para Cine Imperfeito, Revista Cinética, Movie e no blog Cinema de Boca em Boca, do crítico Inácio Araujo.

Diego Costa Assunção já escreveu: 18 artigos.

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