Os melhores filmes de todos os tempos segundo a revista Sight and Sound 

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27.8.2012 - 18:45

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sight sound top 10 filmes

Está circulando há algumas semanas a lista dos melhores filmes de todos os tempos organizada pelo Instituto Britânico de Cinema e publicada pela revista Sight and Sound. Essa pesquisa é realizada uma vez a cada década e contou com a colaboração de 846 especialistas – entre críticos, programadores, diretores.

Em comparação com a lista divulgada há dez anos, a mudança mais significativa ficou por conta da substituição de “Cidadão Kane” por “Um Corpo que Cai” como filme número 1. Alfred Hitchcock desbancou o reinado de Orson Welles. Fazia meio século que Kane vestia a coroa. E, convenhamos, foi-se tarde. Nada contra Welles. Nenhuma contestação à importância de “Kane” para o cinema. Mas já chegou a hora de se beatificar outros santos. “Kane” é tão canônico que até já ofuscou a filmografia posterior do seu autor. Esse foi só o primeiro trabalho de Orson Welles, mas nem considero o seu melhor.

Mas listas sempre repercutem. E causam polêmicas. Há quem leve elas muito a sério ao ponto de aceitar cada nomeação como se fosse anunciada por Moisés como um mandamento divino. Tem também quem vocifera e desqualifica as escolhas alheias contrárias às suas próprias opiniões.Eu sou da opinião de que elas não devem ser levadas tão a sério. Uma lista de melhores filmes é como uma lista de supermercado: uma ajuda a nortear a relação pessoal mantida com a arte, enquanto a outra é útil para recordar a necessidade de se comprar determinado item no mercado. Ou seja, ela só importa mesmo para quem faz.

Por outro lado, pode ser relevante para quem lê quando através dela passamos a conhecer obras até então desconhecidas ou quando nos incita a reavaliar filmes negligenciados. Confesso que ver “O Espírito da Colmeia” em uma relação tão recheada dos medalhões me obriga a conhecer com urgência a obra do espanhol Victor Erice – Monte Hellman já tinha me deixado com remorso ao mencioná-lo em seu último filme.Se uma lista individual sempre revela nada mais do que as preferências do responsável por organizá-la, quando a lista é comunitária as idiossincrasias geralmente dão lugar para opções mais homogêneas. Vejamos o top 10 da Sight and Sound:

Top 10 da Sight and Sound

A única grande surpresa foi a inclusão do filme de Vertov entre os dez, roubando o lugar de prestígio do cinema russo que até então pertencia ao “Encouraçado Potenkim”, de Serguei Eisenstein (agora na 11ª colocação).De resto, os filmes que compõe o topo são as obras mais cultuadas dos respectivos cineastas. Nada incomum ver “2001″ e “8 ½” representando Kubrick e Fellini. Só é assombroso vê-los entre os dez. “8 ½” pode ser o mais felliniano, mas desde quando é superior ao “A Doce Vida”? E como Kubrick consegue estar à frente de Fritz Lang, Rossellini ou Max Ophüls?

Surpresa mesmo haveria caso “Interlúdio” ou “O Homem Errado” estivessem no lugar de “Um Corpo que Cai” como representante da maestria de Hitchcock. Ou “Terra Bruta” no lugar de “Rastros de Ódio”. Para muitos seria nonsense. Eu não veria injustiça se optassem pelas escolhas menos óbvias.Da lista final com os 235 filmes escolhidos, gostei da inclusão de “A Mãe e a Puta”. Mesmo na 59ª colocação, Jean Eustache estamparia um sorriso irônico em seu rosto se estivesse vivo para testemunhar sua obra demolidora de templos fazer parte de uma lista de cânones. Ele só lamentaria mesmo se percebesse estar muito mais próximo da afetação de “Blade Runner” do que da aurora de Murnau que exalta em seu filme.

Uma prova final de que não posso levar a sério listas é a ausência de John Carpenter. Enquanto o impronunciável Apichatpong Weerasethakul emplaca dois filmes na lista final, não encontrei nenhuma menção à elegância do criador de “O Enigma de Outro Mundo” ou “Fuga de Nova York”. A ausência dele seria sinal de que a discrição é uma qualidade meio fora de moda? Não troco uma cena de Snake Plissken desacatando qualquer autoridade por cem filmes como “Melancolia” ou “A Árvore da Vida”.

A nova lista da Sight and Sound pode ter invertido alguns mitos, elegido novos cânones, mas artistas como John Carpenter permanecem à margem. Seria o destino dos proscritos, como ele, Budd Boetticher ou Samuel Fuller? Nada como elaborar nossas listas pessoais para corrigir as injustiças que surgem aos nossos olhos. Alguém se arrisca a fazer pelo menos um top 10?

Diego Costa Assunção

Formado em jornalismo. Já foi crítico de cinema. Colaborou para Cine Imperfeito, Revista Cinética, Movie e no blog Cinema de Boca em Boca, do crítico Inácio Araujo.

Diego Costa Assunção já escreveu: 18 artigos.

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